Felisquié 2025 resgata história da imigração italiana na cidade de Jequié
Décio Torres Cruz*
A IX Festa Literária Internacional de Jequié (Felisquié 2025) este ano homenageou a comunidade italiana que muito contribuiu para a história da cidade e da região. Com a curadoria de Domingos Ailton Ribeiro de Carvalho, escritor, jornalista, Secretário de Cultura da cidade e membro da Academia de Letras de Jequié, o lançamento da Felisquié ocorreu em dois momentos distintos, anteriores à própria Festa Literária. O primeiro, no dia 29 de julho de 2025 na Academia de Letras da Bahia, em Salvador. O segundo, na Câmara dos Deputados da cidade de Roma, Itália, com destaque na Rádio Vaticana em 27 de setembro de 2025.
A IX Felisquié aconteceu de 21 a 23 de outubro de 2025 em diferentes partes da cidade. envolveu intensamente a comunidade, alunos, professores, escritores, músicos, cantores, dançarinos, artistas e grupos culturais em uma série de palestras, shows, música, desfile, filmes e lançamentos de livros. Sua rica programação cultural (que pode ser encontrada no site do evento: https://felisquie.com.br/) ficou distribuída entre o Teatro Eunice Paiva (do Colégio Estadual Luiz Navarro de Brito), a Praça Ruy Barbosa e o Cine São José.
Tive a oportunidade de lançar meu livro Paisagens interiores e sua tradução italiana Paesaggi interiori na Praça Ruy Barbosa, com a presença do meu editor, Nicola Bergamaschi, da Edizioni WE, que também foi um dos convidados da festa e veio diretamente da Itália para a Festa, juntamente com a escritora e antropóloga Patrizia Giancotti e Antonella Rita Roscilli. Além disso, no segundo dia da festa, participei da mesa de bate-papo “De paisagens interiores a histórias roubadas” e fui entrevistado pela escritora e professora universitária Adriana Abreu, quando pude falar de meus livros Paisagens interiores, Histórias roubadas e A poesia da matemática para uma numerosa plateia no Teatro Eunice Paiva, composta de alunos, professores e pessoas da cidade. Neste mesmo evento, li um de meus poemas e fui honrado com a leitura da tradução deste poema (Rituali) pela atriz italiana Anna Giancotti.
A variegada programação da Felisquié tornou esta Festa um grandioso sucesso e uma profícua troca de experiências e aprendizagens. Desejo que ela continue a proporcionar à população de Jequié este importante encontro com a história, cultura, e com as artes literárias, musicais, performáticas e fílmicas.
O resgate de uma história apagada
Algumas observações devem ser feitas em relação ao tema central da festa. Embora a imigração europeia e japonesa tenha ocorrido em diferentes épocas também no Nordeste brasileiro, principalmente no estado da Bahia, muito pouco dela se fala, talvez devido ao fato de que a população ítalo-brasileira tenha preferido se mesclar à cultura local mais intensamente do que nas outras regiões do país onde ela também ocorreu, deixando que o Sul e o Sudeste reivindiquem com orgulho para seus estados este fato histórico e, preconceituosamente, tentam apagar a sua presença na formação cultural do povo nordestino. Há escassos estudos sobre o tema, mas aos poucos esta história vem sendo resgatada, principalmente com os estudos desenvolvidos pelas universidades baianas e de outros estados.
O projeto Memórias dos imigrantes japoneses do Nordeste, realizado pela ANISA, com produção do Grupo Yuugen e apoio do Consulado Geral do Japão no Recife, busca recuperar parte desta história esquecida das colônias japonesas, que foram criadas pelo governo brasileiro entre os anos de 1953 e 1962 a fim de povoar e desenvolver áreas improdutivas e praticamente abandonadas. Na Bahia, estas colônias japonesas se concentraram, a princípio, nas cidades de Una, Ituberá e no Núcleo Juscelino Kubitschek em Mata de São João.
Já a imigração italiana apresenta alguns poucos estudos, embora substanciais, como a brevíssima resenha histórica “A emigração italiana para a Bahia”, do Professor Giuseppe Federico Benedini da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), publicada na Revista Fênix História e Estudos Culturais (2013). O autor fundamenta sua pesquisa na bibliografia produzida por autores brasileiros e peninsulares. Aborda o período desde a Unificação Nacional Italiana até a chegada do último grande grupo de emigrantes na Bahia, em meados do século XX, com enfoque nos contextos das relações internacionais e da história regional e local. Benedini examina as diversas contribuições italianas na indústria, no comércio, nas artes e na agricultura e cita a obra pioneira de Thales de Azevedo, Italianos na Bahia e outros temas (1989). Segundo Benedini, a partir de 1855, quando se gestava a unificação nacional italiana, a polícia portuária de Salvador registrou um decisivo aumento dos italianos em Salvador, muitos deles vindos, com outros europeus, trabalhar para empresas de capital inglês que estavam investindo no setor dos transportes ferroviários devido às boas relações da região do Piemonte com a Inglaterra. Cerca de 912 operários foram recrutados em Turim pela companhia que construiu a linha de Salvador até o São Francisco. Os primeiros emigrantes aportaram em 1858 e, no ano seguinte, se somaram a eles outros 240 que foram alojados na fazenda “São Tomé de Paripe”. Entre 1856 e 1864 desembarcaram em Salvador 1.622 portugueses, 1.267 italianos, 661 ingleses, 299 alemães e 281 franceses.
Outras obras sobre o assunto incluem o livro A Itália no Nordeste (1992), de Manuel Correia de Andrade. A dissertação de Cataline Carvalho Mascarenhas, Jequié-Bahia: História e Memória na sequência didática para o ensino de História (2024) refere-se à imigração italiana e à cidade de Trecchina nas ilustrações, apenas com pequenos parágrafos explicativos, sem dedicar um capítulo especial ao tema. Na tese de Aldo José Morais Silva, Instituto Geográfico e Histórico Da Bahia Origem e Estratégias de Consolidação Institucional 1894 – 1930 (2012), o autor afirma que desde o início do século XIX, a Bahia era o destino de estrangeiros no Brasil. Silva menciona as colônias italianas formadas durante o Império, que não se limitaram à capital, estabelecendo-se, ainda, em cidades interioranas como Conceição do Almeida, Jequié, Jaguaquara, Poções e Morro do Chapéu (em 1909, o primeiro prefeito de Morro do Chapéu, município da Chapada Diamantina, chamava-se Vincenzo Grassi). Nazaré das Farinhas e o Vale do Jequiriçá também aparecem como locais de colônia italiana neste estudo. O autor também menciona Thales de Azevedo. Contudo, a obra de Azevedo citada, em alguns trechos, reflete um pensamento colonialista e colonizado, como aquele ainda demonstrado por muitos brasileiros nossos contemporâneos, que veem o europeu como um ser superior aos nativos que consideram “atrasados”.
Na tese de doutorado Marcas identitárias: presença italiana no sertão da Bahia (1878-1910), a professora Luzia Landim (2012) se utiliza de parte da obra A Nova História de Jequié, de Émerson Pinto de Araújo para enfocar a imigração italiana no Sudoeste baiano na Jequié do período de 1878 a 1910. Destaca que no ano de 1927, a embaixada da Itália designou cônsul e vice-cônsul em Jequié e menciona os impactos da imigração italiana no município, provocando algumas mudanças substanciais nas formas identitárias em confronto naquela época.
A dissertação de mestrado de Antonio Bispo Marcelo Neto que investiga “A presença negra em A Nova História de Jequié do memorialista Emerson Pinto de Araújo”, defendida na UEFS, também aponta a presença italiana na região no livro deste autor estudado, juntamente com os povos indígenas, os sertanistas, negros escravizados, colonizadores italianos e árabes, tropeiros e boiadeiros, coronéis, jagunços, partidos políticos, lideranças políticas e religiosas, coronéis, comerciantes, escritores e jornalistas.
É importante que a população de Jequié continue a preservar sua história, não só aquela dos colonos italianos, mas de todos os povos autóctones, escravizados e migrantes de outras partes que contribuíram para a sua formação humana, econômica, educacional e sócio-cultural. E que as futuras Felisquiés continuem a contribuir não só para o desenvolvimento da literatura, mas, também, para o resgate da história local, estadual e nacional.

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